segunda-feira, 16 de julho de 2012

.'(...) de resto, o amor hoje é mais difícil do que nunca'*.


Sexo & Facebook

por Sónia Morais Santos (...)



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Ana Alexandra Carvalheira, psicóloga clínica e presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica (SPSC), também acredita que não é preciso que a relação esteja a viver um mau momento para que o Facebook dê cabo do resto. «A relação até pode ser feliz e saudável. Só que esta rede social é muito rápida. Tudo é fácil e imediato. As pessoas reencontram outras e entram em contacto. Ora, a comunicação escrita permite a idealização do outro. É muito fácil sonhar o outro, sonhar uma situação... não o estamos a ver e, assim à distância, o outro pode ser perfeito. E, de repente, há uma erotização do outro. E quase sem que se deem conta, as pessoas estão envolvidas. Depois, ao procurarmos amigos do passado ou ex-namorados, estamos à procura de sentimentos antigos, estamos à procura do que nós éramos, do que vivemos. E alimentamos essa nostalgia, essas saudades de um tempo que passou mas que, se calhar, até pode voltar.»

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A presidente da SPSC, que já recebeu no seu consultório bastantes casos de relações amorosas desfeitas (ou em apuros) por causa do Facebook, não descarta a hipótese do desencanto. «A idealização do outro pode ser tão diferente da realidade que essa desilusão é possível, claro que sim. Além disso, como a comunicação e a intimidade são muito rápidas, não se pode falar num conhecimento efetivo daquela pessoa. Pode haver intimidade na internet, porque a intimidade pressupõe que eu me sinta validada e compreendida e isso acontece, mas conhecer as pessoas a fundo acontece depois, na vida real. E aí, sim, pode haver lugar à desilusão.»

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Para a psicóloga Ana Alexandra Carvalheira a história de Sofia faz todo o sentido, à luz do contexto social que vivemos: «Estamos num momento da História em que as pessoas querem realizar-se a nível amoroso e sexual. E querem essa realização já, no imediato. Ora, a internet permite isso. O Facebook permite isso. Por outro lado, nesse contexto de transformações a nível social há mulheres que procuram uma one night stand, sem consequências.»


(...) «O jogo erótico é mais rápido, saltam-se até algumas etapas e há a perceção de uma escalada de intimidade muito mais veloz. As pessoas sentem-se íntimas muito rapidamente.» Além disso, explica Ana Alexandra Carvalheira, tem tudo que ver com a diversidade de graus de compromisso que se pretende: «Neste contexto social em que vivemos, há quem queira um relacionamento com um compromisso muito forte, menos forte ou totalmente inexistente. E no Facebook há de tudo, para todos os gostos.»


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*Para a psicóloga, de resto, o amor hoje é mais difícil do que nunca. «Queremos alguém que encaixe. Que seja a nossa cara-metade. Que nos acompanhe a nível cultural, profissional, socioeconómico... Que queira ter cinco filhos, como nós, e não três. Ou que não queira ter filhos. Temos pouca paciência para fazer concessões. E temos pouca paciência (ou nenhuma) para esperar. Queremos alguém, e queremos já. Mais uma vez, o Facebook tem milhões de pessoas, à disposição, à distância de um -olá-, teclado de forma descomprometida.» Daí em diante... é só deixar arder o rastilho.


P&R


Cláudia Morais, psicóloga e autora do livro O Amor e o Facebook (Oficina do Livro)


Tem, na sua experiência clínica, muitos casos de relacionamentos afetados pelo Facebook?

_ Sim. Aparecem-me muitos casos de infidelidade. Pode ser uma infidelidade consciente ou uma infidelidade que nasceu de um momento de fragilidade. É muito fácil trair a partir do Facebook. Quando se reencontra alguém que fez sentido para nós, há vários anos, pode nascer ali uma chama qualquer. Ou então, se estivermos numa má fase da vida, às tantas começamos a desabafar com aquela pessoa que, de repente, se torna um ombro amigo. Às vezes é alguém que acabámos de conhecer mas com quem a intimidade cresce de forma galopante.

Porque é que há essa rapidez?

_Porque no Facebook estamos despidos dos pudores que temos socialmente. Ali comunica-se por escrito e, por isso, falta a maior parte dos elementos da comunicação. Não ouvimos a voz, não temos a expressão corporal, não temos o olhar. É muito fácil criarem-se equívocos.

Tem encontrado mais homens ou mulheres que se traem no Facebook?

_Mais homens. Mas a diferença não é tão significativa como seria de pensar. Além disso, os homens são mais frequentemente apanhados em falso do que as mulheres. São muito menos atentos aos pormenores.

É possível que se abra espaço para outra pessoa, no Facebook, se uma relação for sólida ou acha que isso só acontece no caso de relações já muito desgastadas?

_ Na maior parte das vezes as coisas já não estariam bem. Podia não haver tensões identificadas, mas os dois admitem, a posteriori, que a rotina já estava instalada. Mas também acontece, e não tão poucas vezes quanto isso, que uma relação sólida, satisfatória para os dois lados, de repente é abalada nas suas estruturas por alguém que apareceu no Facebook. E ouve-se frases como: «Até há uma semana eu estava tão bem, tão feliz, e agora dou por mim com o coração acelerado sempre que aquela pessoa aparece online.» É muito fácil. E perigosamente imediato."

[http://www.dn.pt/revistas/nm/interior.aspx?content_id=2666273]