"(...) Viver é, pois, ter «Fome de tudo», sendo este um tudo secreto, como «É secreta a conversa entre o fogo e a lenha», «a voz dos búzios, a saudade das andorinhas», a beleza, o espírito, o medo, a morte, a loucura, o acto de criar.
(...) o amor cujo mel «tem o esforço da abelha», e que, ávido, pede para ser construído todos os dias ou dito assim em Ano Comum: «Tenho sede quando te beijo. Quando não te beijo tenho sede.».
(...)
«Sou apenas um escritor. Um cultivador. Um jardineiro. Um florista. A minha felicidade flutua entre o estrume que deponho na raiz das palavras e o aroma que me excita quando acabo de as colher», diz-nos o eu numa sábia relação com o mundo empírico que o suporta para definir o seu lugar no Mundo, ao mesmo tempo que, aludindo à imortalidade dos escritores, se projecta na eternidade: a sua idade «é a mesma do lobo, do alce, da andorinha», que não conhecem o tempo, não conhecem a morte e por isso são imortais: «E não sei que idade tenho. Talvez sessenta anos. Talvez o tempo do amor. Ou o tempo que falta para salvar o amor.»."
Teresa Sá Couto - posfácio 'Ano Comum', Joaquim Pessoa [http://comlivros-teresa.blogspot.pt/2011/10/joaquim-pessoa-um-lugar-no-mundo.html]