"As palavras D. Manuel Monteiro de Castro, recém-nomeado cardeal por Bento XVI, que, esta semana, incendiaram as redes sociais, devem ser escutadas desapaixonadamente. Ao preconizar trabalho em horário reduzido ou apoios do Estado para que a mulher possa ficar em casa, a cuidar dos filhos, o cardeal está a ser realmente reacionário? Ou pensamos assim, porque a ideia vem de um homem de 73 anos, importante na hierarquia de uma instituição suspeita, em matéria de igualdade de género? Repare-se: em nenhum momento D. Manuel propõe um regresso da mulher à dependência do marido: o que ele reclama são apoios do Estado à maternidade. Exatamente na linha do que fazem alguns dos nórdicos, com legislação que deixa as mães ficarem em casa até quatro anos! Estará Sua Eminência na vanguarda do Estado Social?
Receio bem que não. E que não tenha sido isso que ele quis dizer. Não por D. Manuel ser quem é, ou porque fala "achim", como os padres cliché do anedotário popular... A sua ideia, que atrás citamos, teria todo o cabimento, se pudesse ser também aplicada, opcionalmente, aos pais (e não apenas às mães), e desde que houvesse mecanismos compensatórios dos prejuízos na carreira profissional. O problema é que, logo a seguir, D. Manuel diz uma pérola que denuncia o seu preconceito: "A mulher trabalha de manhã à noite e, quando chega a casa, o marido quer falar com ela e não tem com quem falar (...)." Presume-se que por causa do cansaço da esposa. E presume-se que a inversa - marido cansado e, portanto, incapaz de entreter a mulher - nem sequer se põe. Essa é uma tarefa dela...
Mas isto ainda podia ser um fait-divers, no discurso do senhor cardeal. O maior problema vem a seguir: "A mulher deve aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos." Numa frase, D. Manuel desqualifica uma multidão de operárias, professoras, juristas, executivas, empresárias, artistas, desportistas, cientistas, deputadas e governantes, que nada fazem de "essencial". Esqueçam lá isso e vão para casa. Da mesma penada, Sua Eminência demite os pais de qualquer "função essencial" na educação da sua prole.
É óbvio que a Igreja, hoje, já não é isto. D. Manuel representa um setor ultrapassado, já com pouco peso no terreno e irrelevante do ponto de vista da doutrina. As palavras de D. Manuel levantam, porém, um debate, que pode fazer-se, sem tabus: nos tempos que correm, deve ou não haver um regresso ao lar? Um dos progenitores (o pai ou a mãe) devem ou não acompanhar, a tempo inteiro, os primeiros anos de vida dos seus filhos? Num quadro de crise, empobrecimento e falta de emprego (recorde-se que o pleno emprego dos anos 60 ocorria num tempo em que a maior parte das mulheres não constava da estatística porque, estando em casa, não entrava no mercado de trabalho...) voltará a ser o núcleo familiar a tábua de salvação? Os riscos que corre a Segurança Social e o crescente número de idosos que morrem abandonados bem suscita essa reflexão.
Mas esse é um debate de que se pode dispensar D. Manuel Monteiro de Castro, as suas ideias feitas e os seus preconceitos. E a Igreja, que desde o Concílio Vaticano II, tem feito esforços meritórios de aproximação à realidade, também bem dispensaria esta publicidade negativa."
Filipe Luís ['Mulheres essenciais', Sexto Sentido - Visão]
/*'Shes Always A Woman', Billy Joel