/' Os Vampiros', Zeca Afonso
Miguel de Sacadura Cabral Portas, 1958 - 2012
Miguel Portas faleceu, ontem, a escassas horas dos cravos em revolução. Era uma referência política fácil de gostar, deixa um percurso humano que, acredito, pautado pela honestidade e frontalidade (sim, tinha a minha simpatia) e dois filhos. E a sua mãe. Leio Helena Sacadura Cabral e não consigo deixar de pensar nela, neste momento. A dor de uma mãe que sobrevive a um filho. Porque, muito sinceramente, hoje não acredito que uma mãe sobreviva a mais alguma coisa, em momentos assim. Não sou mãe, mas hei-de levar para a vida o retrato da dor profunda que a mãe do Carlos foi, no dia do funeral dele. Pouco importa, suponho, que o filho tenha 21 ou 53 anos. Será sempre uma morte ridícula, seja porque um tipo fez uma ultrapassagem tão cara, que cobrou a vida a quem ia, tranquilo e cheio de vida por cumprir, no carro, em sentido contrário; seja porque uma doença se armou em arrogante. Para a mãe do Carlos e para a Helena Sacadura Cabral, será sempre uma morte fora do tempo, estúpida.
Miguel Portas deixa dois filhos, dois irmãos, um pai e uma mãe. Uma mãe que, a partir de ontem, vai aprender a palavra orfã-de-filho. Porque, eu acredito, perder um pai é a dor mais tangível à de perder um filho. E eu vou continuar a ler as palavras de Helena Sacadura Cabral, na esperança que haja coisas que só se conhecem e se aprendem pelos livros. Porque a perder-se um filho, não se sobrevive senão a ele. E eu vou continuar a ler as palavras de Helena Sacadura Cabral, na esperança que fiquem as de amor de filho no amor da mãe.
Sentidas condolências à família.
/'O Meu Amor', Cristina Branco