"Contavam-me há dias que determinada mulher tinha sido apanhada na cama com o melhor amigo do marido. A situação é um cliché da infidelidade, parece-me sempre coisa de filmes, até porque não conheço nenhuma mulher que o tenha feito. Mas conheço muitos homens traidores...
Os meus homens têm sido todos filhos únicos, e isto já deve ser Deus a impedir-me de ter cunhados para não cair em tentação. A tentação está sempre a um palmo da nossa cara e não é só no frigorífico. Está a menos de um metro com um colega que trabalha connosco, com um amigo em quem nunca tínhamos reparado (pelo menos daquele modo), com o personal trainer do nosso ginásio, com a rapariga simpática da lavandaria, com a gestora de conta do nosso banco. Às vezes basta um mail, que sempre terminou «cordialmente», «atentamente» e, de um dia para o outro, lá aparece um remate diferente - «beijinhos».
Pode não ser nada ou o início de uma tórrida amizade.
A tentação passou a estar muito mais ao virar da esquina, porque percebemos que não há muito a perder. Acaba-se e começa-se de novo, portanto porque não tentar ou deixarmo-nos tentar?
A minha dúvida é: como se gere uma vida assim? A mesma gestora de conta pode gerir-nos a tentação? Segurar as pontas da relação estável e marcar jantares e saídas com os outros/as?
Como se vive assim?
É verdade que, não conhecendo mulheres apanhadas na cama com o melhor amigo do marido, conheço sobretudo homens que fazem esta vida dupla de tentações. Gente que tem uma (aparente) vida boa de casado, mas que a «equilibra» com aventuras curtas de tardes de hotel e, no extremo, uma viagem de fim-de-semana. Ser apanhado é o motor da adrenalina. Normalmente estas pessoas arriscam (e muito) e essa sensação dá-lhes uma força maior.
Não vamos armar-nos em pudicos ou conservadores. Todos gostamos da atenção dos de fora, sobretudo quando, por rotina, a que vem de casa começa a falhar. E de repente lá estamos a valorizar uma pergunta de cuidado ou um elogio que afaga o ego. Eu gosto, vocês não?
Perguntava-me um amigo (a quem coloco muitas questões) se a curiosidade não é o início do flirt. Quando temos sede de perguntas é porque algo já despertou essa torrente.
Pensando que as perguntas raramente se esgotam (enquanto mantemosa chama), onde é que isto vai acabar depois?
A mulher apanhada com a boca na botija (do melhor amigo do marido) provavelmente foi saciar a curiosidade. Ele, o amigalhaço, tratava-a sempre tão bem. Reparava naquilo que o marido já nem notava, tinha sempre uma palavra boa quando ela estava em baixo e um dia, um dia como os outros, foi um braço atravessado nas costas dela que a fez sentir tão bem, tão aconchegada. Do braço ao abraço foi um instante. E afinal já se conheciam há tantos anos! Só a pode condenar quem não a conhecia.
Os jardins ao abandono ficam secos e neles cresce todo o tipo de ervas daninhas (por sinal com muito viço). Nas relações pouco cuidadas é exactamente a mesma coisa: não crescendo o amor, crescem sentimentos menos bons que dão lugar a muitas desconfianças, dúvidas e, se calhar, à tal curiosidade que pode degenerar num affaire. Se for bem sucedido, pode ser outra vez o amor.
Todos têm direito a procurar uma felicidade qualquer, mesmo que pareça uma miragem. Os filhos fazem ficar muitos em relações longas e tristes, quando muitas vezes os filhos (também eles) seriam muito mais felizes com os pais em separado, mas ambos a tentarem uma nova sorte.
Aos poucos e poucos vamo-nos libertando de estigmas e condenações. Até porque, mais cedo ou mais tarde, algo semelhante nos bate à porta. Depois lembrar-nos-emos da amiga que criticámos, do amigo que julgámos, e lá estaremos nós próprios a viver algo semelhante.
Tentar o amor é obrigação de todos. Oh God make me good but not yet"
Cidália Dias ['A gestora de conta', O sexo e a Cidália - http://www.dn.pt/revistas/ns/interior.aspx?content_id=1950983]